”Rocketman” – Ou como vestir um terno de bilhão de cores! (REVIEW)

Quando se fala em filmes biográficos, logo vem na cabeça aquela esquematização de criança incompreendida, artista sofrendo pra fazer sucesso, o estouro do mesmo, algum problema que acontece no pico da fama e, finalmente, a catarse com alguma música ou momento importante da carreira. E isso é chato, e extremamente previsível, duas coisas jamais associadas a Elton John quando o mesmo estava no auge. Até por isso, após ver ”Rocketman”, fico extremamente feliz que esse não é o resultado de um projeto que findou muito ousado e, consideravelmente, original.

O longa começa com um Elton mais velho entrando de forma abrupta em uma sala cheia de pessoas, vestindo uma cintilante roupa de diabo cor laranja e declarando sem pestanejar todos os seus vícios. E é isso que o filme faz com todos os problemas que o cantor encara em sua vida, escancara sem medo ou floreios todos os temas pesados que rondaram a vida do grande astro. E o faz pensando em como isso moldou o seu protagonista desde sempre, uma ótima sacada para lidar com quem Elton foi e como isso o transformou ao longo do tempo. De forma inteligente, as relações do cantor acabam sendo centralizadas na trama, desde seus problemáticos pais que nunca o aceitaram, seu primeiro amor que nunca teve o sentimento de fato, e até sua parceria com Bernie Taupin (Jamie Bell faz muito bem o lendário compositor). E o filme vai realmente fundo nisso, vemos Elton indo atrás de seu pai inúmeras vezes ou tendo que ouvir, quando o espectador esperaria outra coisa, uma dura resposta de sua mãe ao telefone. Nós vemos um potencial amoroso se transformar em um vilão aos olhos do cantor e tudo isso faz com que a viagem de ácido, basicamente literal, que o filme entrega seja ainda mais dolorosa e honesta na jornada do nosso ”herói”.

Em tempos que filmes de artistas LGBTQ+ colocam a homossexualidade como algo ruim, é revigorante ver como o lado ”Queer” de Elton é abraçado muito além dos esplêndidos, mas inevitáveis, figurinos que enchem a tela de cor. Esse mesmo aspecto define o tom da narrativa e cria um filme musical com uma inacreditável identidade visual que jamais tem medo de ser 100% campy, brega, exagerado ou qual palavra você quiser utilizar, algo tão perto da essência de Elton e que dignifica o longa como um todo. As sequências musicais de ”Rocketman”, ”Hunky Cat” e a decisão de recriar um dos clipes mais icônicos dos anos 80 (e o mais da carreira de Elton) sedimentam a forma incisiva que o filme tem em não esconder um traço sequer da personalidade do cantor, tornando a experiência ainda mais intrínseca a tudo o que o artista conheceu e entregou em sua vida.

Foto: Divulgação

Porém, nada disso funcionaria sem a performance central de um Taron Egerton totalmente em sincronia não só com o seu personagem, mas com o tom do filme. Egerton não tem a voz de Elton, mas canta muito bem e tem carisma de sobra, é perceptível o quanto ele está não só empenhado em cena, mas claramente entregue (e apaixonado!) pelo personagem, é algo que transcende simplesmente atuar. E não, não estou dizendo que essa é uma performance espetacular, mas é uma atuação visivelmente calcada em um respeito fortíssimo pela pessoa em questão, que resulta em algo humano e bem sincero.

Claro que nem tudo funciona, como a utilização de Bryce Dallas Howard como mãe do cantor ou como o empresário/primeiro amor de Elton (um delicioso Richard Madden em cena) acaba quase sendo uma caricatura de vilão, mas no fim das contas é uma experiência extremamente prazerosa que me encheu o coração seja por explicitar o quanto ”gêneros” batidos podem sempre ter um novo olhar ou porque o tema de amor próprio é algo sempre necessário, e nunca tarde demais para ser descoberto.

”E você, quando vai me abraçar?”

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